O que é panspermia
A teoria dominante sobre a origem da vida na terra anda sob suspeita, pelo menos para alguns astrônomos. Eles admitem que a vida possa ter-se originado muito longe daqui, nas enormes e rarefeitas nuvens proto-estrelares.
Essa ideia ousada – proposta no início dos anos 70 pelo polêmico astrônomo inglês Fred Hoyle e por seu discípulo, o cingalês Nalin Chandra Wickramasinghe – foi recebida com ironia pela comunidade científica da época. Mas vem conquistando adesões cada vez maiores, à medida que o tempo passa e as evidências se acumulam. Ela afirma que os primeiros organismos terrestres não se formaram no planeta, mas já chegaram prontos do espaço exterior. Trata-se de uma reciclagem da teoria da panspermia, do químico e prêmio-nobel sueco Svante August Arrhenius (1859 – 1927), segundo a qual a vida instalou-se na Terra a partir de microrganismos vindos do espaço sideral.
Conforme Hoyle e Wickramasinghe. Os microrganismos alienígenas não apenas trouxeram a vida ao planeta, mas continuam chegando aqui em levas sucessivas. Para sustentar essa ideia, eles recorreram ao argumento de que as epidemias de gripe raramente ocorrem num único lugar da Terra, mas em várias localidades ao mesmo tempo. E que isso acontecia mesmo na época em que os contatos entre essas regiões eram muito precários. Os vírus causadores dessas epidemias teriam vindo de fora e incidiram sobre a superfície do planeta, atacando diversas áreas simultaneamente.
Ainda não foi apresentada nenhuma prova conclusiva a favor da panspermia. Mas já está perfeitamente demonstrado que, se não organismos vivos, ao mesmo moléculas orgânicas complexas – que constituim o equipamento material indipensável para a manifestação de vida, tal como conhecemos – chegam continuamente à Terra, vindas do espaço. O planeta recebe um aporte médio de 100 mil toneladas de matéria, na forma de meteoritos e poeira cósmica. Parte desse material corresponde a compostos prgânicos, inclusive aminoácidos.
Mais instigante ainda é a possibilidade de que esses e outros componentes já pudessem estar presentes na nuvem de gás e poeira que supostamente originou o Sistema Solar. Em 1968 foram descobertas, na poeira interestelar, moléculas orgânicas complexas, os hidrocarbonetos aromáticos, importantes para a constituição dos componentes materiais dos organismos vivos. Desde então, os astrônomos já encontraram dezenas de tipos de moléculas orgânicas nesse meio gasoso.
As ideias de Hoyle e Wickramasinghe, que saltam do ambiente terrestre para os cenários cósmicos, contra dizem o modelo atualmente aceito e baseado nas opiniões do bioquímico russo Aleksandr Oparin (1894 – 1980), segundo o qual a vida terrestre originou-se na própria Terra, a partir de combinações de materiais não-vivos.
Segundo alguns bioquímicos, a hipótese de Oparin esbarra num sério obstáculo: a escala de tempo. Estima-se que a Terra tenha se formado há cerca de 4,5 bilhões de anos. E que os primeiros organismos vivos surgiram, no máximo, 1bilhão de anos depois dessa data, ou seja, há cerca de 3,5 bilhões de anos. Embora pareça muito, 1 bilhão de anos é um intervalo de tempo bastante apertado para acomodar todas as etapas do processo proposto por Oparin. Isso porque, se fosse vistas como mera obra do acaso, a sequencia completa dessas etapas apresenta uma probabiladade muito baixa de ocorrer.
Wickramasinghe imaginou um caldo primitivo contendo, em porções iguais, os 20 aminoácidos biologicamente mais importantes. E calculou quantas combinações seriam necessárias para formar, a partir daí, as cerca de 2 mil enzimas decisivas para a constituição do amplo espectro de vida terrestre. Chegou a um número impronunciável: 10 elevado a potência de 40 mil, ou o algarismo 1 seguidos de 40 mil zeros. E isso só para enzimas. A probabilidade da ocorrência de um tal número de combinações, num intervalo de 1 bilhão de anos, é praticamente igual a zero. Para expressá-la, Wickramasinghe recorreu a uma imagem que já se tornou clássica: “Um vendaval que soprasse teria maiores probabilidades de juntar essas partes, formando um Boeing 747 novinho em folha, do que os processos do acaso criarem vida a partir de seus componentes químicos”
Com base na forma como a poeira interestelar absorve a radiação emitida pelas estrelas, Hoyle e Wickramasinghe chegaram à conclusão de que o cosmo está cheio de microorganismos vivos. E isso os levou à hipótese alternativa sobre o surgimento da vida terrestre. Ainda assim, a origem dos seres vivos permanece uma questão aberta. Caso a vida possa resultar da síntese aleatória de elementos pré-bióticos, o acréscimo de alguns bilhões de anos parece significar pouco diante de sua extrema improbabilidade. Não podemos dilatar indefinidamente o intervalo de tempo, porém, porque a teoria do Big Bang impõe um limite para a idade do Universo. O salto da matéria pré-biótica para a vida continua um mistério. A menos que se admita um princípio criador, atuando em algum lugar do acaso cego.
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